Santo de casa

sexta-feira, 1 de junho de 2012

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(jornal Tribuna de Minas, 01/06/2012)
Em homenagem ao aniversário de Juiz de Fora

Alô, Gabi? Oi, Gabi, sou eu! Libera uns cabides no guarda-roupa que eu tô chegando! Como assim "como assim chegando"? Chegando, chegando, uai... Aliás, já cheguei! Surpresa! O ônibus está passando em frente ao Salvaterra. É. Meu chefe liberou. Vou emendar o feriado. Alô...? Gabi? Fala de novo que a ligação ficou muda... Ah, tá bom, não precisa jogar na minha cara. Eu sei que vivia dizendo que não via a hora de pegar meu diploma e arranjar um emprego na "metrópole" e que, quando isso acontecesse, "Deus me livre de voltar para casa na primeira folguinha, não aguento mais dividir o quarto com a Gabi"... Como? Ah, sim, bem lembrando, dividir o quarto com a chata da Gabi. Mas as coisas mudam, ué. Fiquei com saudade do meu travesseiro, do meu colchão, da minha cama encostada na parede cheia de rachaduras estufadas de umidade. E da minha família também, é claro. Aliás, Gabi, parabéns! A mamãe me contou que a sua carteira de motorista chegou. Puxa, que emoção! Passou de primeira no exame! Essa é a minha irmãzinha! Escuta, será que dá para você me buscar na rodoviária? Levar um casaquinho para mim? Tá frio pra caramba... Pode ser aquele casaquinho amarelo, aquele que você comprou na feirinha da Halfeld, aquele que... O quê? Que injustiça, Gabi! Eu nunca debochei do amarelo do seu casaquinho, é um amarelo muito bonito, muito... amarelo, eu gosto de ovo, de amarelo-ovo. E você está me confundindo com outra pessoa, eu nunca falei mal da feirinha da Halfeld. Quer dizer, talvez eu tenha falado. Uma ou duas vezes. Mas as coisas mudam, ué, e eu estou doidinha para fazer umas compras no "shopping a céu aberto", comer bolo de amendoim na Brasil, pipoca no parque, passear pelas galerias com mil lojas e que lojas! Tem até Americanas! Tá rindo de quê, Gabi? É verdade que eu vivia reclamando que o dinheiro não corre por esta cidade, que a moda demora a chegar e, sim, Gabi, Americanas tem em tudo que é lugar! Mas dá licença? Eu gosto das Americanas daqui, porque, nas Americanas daqui, eu posso entrar por uma porta e sair pela outra, fazer o mesmo trajeto todas as vezes, passar pelos mesmos corredores, pelas mesmas prateleiras, sem surpresas no caminho; se bobear, os vendedores me chamam pelo nome! Pelo nome, Gabi! Você tem noção da alegria que é ter um nome próprio na sua cidade? Puxa! Faz tempo que eu não sei o que é isso! Ah! Aproveita e põe a máquina para carregar que vou bater umas fotos dos prédios históricos para mostrar para a Isabela que trabalha comigo. Ela ficou encantada quando contei do Theatro Central, da arquitetura e do tombamento. Também contei da Praça da Estação, do Colégio Santa Catarina, do Espaço Mascarenhas, do... Não, Gabi. Eu não contei para a Isabela que eu andava pelas ruas sem olhar para os lados simplesmente porque não é verdade, Gabi, você está exagerando, eu sempre olhei para os lados, sempre prestei atenção nas belezas de Xis-di-Fora. Ah, Gabi, faz um favor para mim? É, outro favor... Avisa o Juninho, a Lili, o Diogo, a Bianca, a Lalá e a Tatá! Quero reunir os amigos no Bigode. Ou no Bar do Léo. De noite, quem sabe, rola até um Cultural com direito a Mary Milk na madrugada. Hã? Se eu me lembro de ter reclamado que estava cansada dos mesmos bares e que não via a hora de fazer novos amigos? Pois é, que coisa engraçada, veja só você... Mas ei! Panela velha é que faz comida boa! Ai, meu Deus, Gabi, o ônibus acabou de estacionar na plataforma! Pega a chave do carro do papai e vem logo me buscar, tchau... Ah, Gabi, espera, espera, espera... Antes que você leve um susto, caia para trás ou coisa assim, vou logo avisando que eu emagreci cinco quilos, cortei o cabelo na altura do ombro, descolori umas mechas e estou vestindo uma camiseta preta e branca, já me preparando para o futebol de domingo, a gente vai vencer, a gente tem de vencer, estou roendo as unhas, vamos com tudo, meu santo de casa, vamos fazer esse milagre! O quê? É claro que eu lembro que vivia reclamando dessa gente que vê graça em futebol. Mas, pela última vez, Gabrielle, as coisas mudam e eu agora sou Tupi.

Carol Sabar